“Você nunca sentiu amor por mim, querido. A única coisa que ti sentiu por mim fora dó, piedade - apenas isso. Você confundiu os seus sentimentos. Eu não te culpo, eu estava tão sozinha que o primeiro sentimento que ti sentiu fora compaixão. Você viu meus olhos brilharem quando encontrei os seus, e você sentiu uma dorzinha no peito, não foi amor à primeira vista, foi pena. Você me abraçou forte e sentiu meu corpo quente encostar o seu, e seu coração começou a se acelerar, não foi paixão, foi apenas solidão – de ambas às partes, confesso. Você foi se despedir de mim e sem querer me deu um beijo, e você já me achou diferentes dos demais, não foi amor, foi carência. Eu também errei, eu também confundi meus sentimentos. Como eu já lhe disse, eu estava sozinha, carente, pedindo carinho aos quatro ventos, e meio que sem querer eu avistei você, justo você. Tu foste tão doce comigo que comecei a achar que era amor. Eu acreditei que era amor, tanto que sempre dizia em sussurros nos seus ouvidos o quanto eu achava que o amava. Perdoe-me por isso, querido. Não quis te magoar, não quis me magoar, não queria nos atingir com ilusão alguma. É que com você eu me sentia única, entende? Você me beijava de um jeito tão seu que eu me perdia dentro de mim mesma. Você me tomava de um jeito tão gostoso que eu acabei confundindo amor com tesão. Eu fiz tempestade em copo d’água. Eu me entreguei tanto á você que achei que tudo o que eu sentia era amor. Fomos tolos em confundir amor com carência. Nós fomos conveniências um do outro. Você estava sozinho, eu estava sozinha. Clamávamos por carinho e encontramos um no outro aquilo que tanto buscávamos – carinho, afeto.. abrigo. No começo foi lindo, tenho que confessar. Ter você como cobertor todas as noites foi bom.. E como foi! Ter com quem brigar me fez bem, ou eu achava que me fazia bem. Eu gostava de ter alguém para desfilar no colégio de mãos dadas. Fazia bem para o meu ego. Eu gostava de acordar cedo e ver você com as mãos na minha cintura, eu me sentia uma verdadeira mulher. Eu gostava de sentar no teu colo e sentir as suas mãos pressionando o meu corpo no seu, eu me sentia desejável. Ninguém nunca cuidou de mim como você, ninguém nunca aceitou os meus erros como você aceitou. Ninguém nunca quis meu bem-estar como você quis. Ninguém nunca me ofereceu um ombro pra chorar como você ofereceu. Ninguém nunca me deu carinho e afeto como você me deu. Ninguém nunca foi tão cavalheiro como você foi. Foi por isso e dentre outros motivos eu achei que o que eu sentia por você era amor. Tudo o que eu senti por ti foi admiração, isso apenas admiração. Eu nunca tinha visto um homem ser tantas coisas ao mesmo tempo. E com medo de perder tudo isso, todo esse afeto que tu me davas eu continuei levando, suportando essa desigualdade. Mas, entretanto, não venha colocar todo esse julgo nas minhas costas. Você só me tratou assim por que já partiu um coração de outro alguém. Você sabia como me levar, como fazer me derreter por inteira. Você sabia me ganhar. Você sabia como me fazer perder a linha, os meus sentidos. E eu tola por si só, cai na sua rede. Nós fomos um erro para o outro. Nós nos usamos, usamos tanto que nos acostumados em ser apenas o objeto do outro. Mas o tempo foi passando, você foi se enjoando, eu fui me enjoando do mesmo “feijão com arroz” todos os dias. Nosso “amor” foi desgastando dia após dia, e olha como estamos.. Nem nos conhecemos mais. Você passa na rua e me cumprimenta com um sorriso seco no rosto, e eu com um aceno com as pontas dos dedos. Sentimos tanto, nos tivemos tanto, e olha como estamos; nem eu e muito menos você fazemos alguma diferença para o outro. Quem diria não? Que a água se tornaria vinho.” - Lilian Machado - LM